A Realidade Nua e Crua das Startups: Por que escolhi outro caminho
Por que um especialista em startups decidiu não seguir o caminho do founder mode? Entenda minha estratégia focada em liquidez e alavancagem financeira.
Em 1998, eu iniciava minha primeira empresa de tecnologia, ainda meio perdido sobre o que estava fazendo. Apenas resolvi um problema que havia identificado, usando um, para a época, poderoso Pentium MMX.
Depois disso, não segui a rota corporativa tradicional como meus amigos. Optei por empreender, e passei mais de uma década à frente de uma consultoria e fábrica de software.
Ou seja, embora eu tenha me especializado em startups nos últimos 10 anos, meu início foi na economia real, por mais tecnológica que fosse.
Há alguns meses, em uma conversa com um amigo de Private Equity sobre M&A, apresentava alguns ativos da minha carteira já maduros para liquidação e, quase instintivamente, perguntei:
“Você busca empresas da economia real ou startups?”
Ele respondeu: “Existe outro tipo de empresa, além da economia real?”
Pode ter soado como uma simples provocação bem-humorada, mas essa resposta me fez repensar completamente minha estratégia empresarial e de investimentos.
E agora, vou abri-la para você.
A curva do unicórnio
Em 2018, eu mergulhei de cabeça no mundo das startups. O que era para ser apenas mais um público para meus serviços de tecnologia, rapidamente se tornou meu foco principal.
Não só pelo alto volume de negócios que consegui gerar em pouco tempo, atuando como CTO as a Service - uma operação que superava com folga, e menos esforço, minha antiga fábrica de software - mas também pela oportunidade de multiplicar capital.
Eventos, bancas de avaliação, ideias fenomenais e todo o "confete" que criou o termo "empreendedor de palco".
Porém, como eu costumava dizer na época, caí no “golpe do unicórnio” e perdi um valor considerável investido em 10 startups que simplesmente desapareceram em menos de 10 meses.
Mais tarde, em 2022, dei write-off em quase metade dos meus ativos, perdendo milhões, o que me motivou a escrever sobre a “Startup Vira-lata Caramelo” ( https://fastcompanybrasil.com/news/o-que-e-a-startup-vira-lata-caramelo/ ), termo que criei e que me colocou no radar do Venture Capital Brasileiro.
Mas esse susto foi apenas a ponta do iceberg, algo que vim a entender em detalhes anos depois.
O verdadeiro vale da morte
O “golpe do unicórnio” sempre vende a história do fundador herói, com noites em claro em meio a telas de computador, pizza fria e post-its, os desafios do crescimento, até a vitória milionária.
Mas, na prática, vender uma startup não é como deixar seu carro seminovo numa loja multimarcas. E eu descobri isso vendo meus amigos serem engolidos pela realidade.
A trilha típica de uma startup “sabor Vale do Silício” é levantar várias rodadas de investimento até atingir robustez suficiente para um IPO (Initial Public Offering) ou abertura de capital na bolsa de valores.
Em pouco tempo, com os resultados catastróficos da maioria das startups que fizeram IPO, ficou claro que a porta para a liquidez estava no M&A (fusões e aquisições). Isso baixou bastante as expectativas de investidores e fundadores (e eu me incluo nesses dois grupos).
Quem captou demais e ficou acima da faixa de M&A (que antes girava em torno de R$ 500 milhões e agora raramente supera os R$ 100 milhões) entrou para o verdadeiro vale da morte, com um prego a mais no caixão a cada write-off.
Quem ficou dentro da faixa, precisou se virar para equilibrar as contas sem precisar de novos aportes e correr para a linha de chegada que, dependendo da operação, não era exatamente o final feliz esperado.
E aí, abre-se a caixa de pandora…
Earn-out e preferência de liquidação (equity não é tudo igual)
O plano perfeito: vender a startup por R$ 400 milhões para uma big corp, receber um pix na conta e partir para um sabático.
A realidade cruel: vender a startup por R$ 400 milhões para uma big corp, receber uma mixaria como "compensação" pelo período com salário de startupeiro e virar funcionário com metas absurdas que condicionam o recebimento do valor final depois de... 5 anos?
Pois é, vender uma startup não é o mesmo que entregar a chave do carro na loja, embora a barganha pelo preço seja quase idêntica.
Muitos amigos da minha época de startup viveram isso da pior maneira, e muitos deles ficaram longe de receber a "parte milionária", muitas vezes pelas metas impossíveis ou mesmo pela simples troca de ações que, em muitos casos, não eram lá a coisa mais líquida do mundo.
O equity do fundador, além de passar por várias diluições a cada aporte, é o último a ser liquidado, frequentemente atrelado a contratos de earn-out que prendem o executivo à operação para garantir uma "transição" suave.
Na prática, é como fazer o fundador pagar pela própria saída, sob uma governança que muitas vezes diverge do seu plano inicial.
Quem comemora de verdade numa operação dessas? Em primeiro lugar, e merecidamente, os investidores, seguidos por advisors e colaboradores com stock options.
No meio do caminho, os colaboradores que receberam equity através de vesting, que podem ou não ser incluídos no earn-out.
Isso sem falar nos deals que não divulgam o valor, que geralmente são barganhas quase imorais (já presenciei várias), que pagam o "CDI" para o investidor ou a velha troca de figurinhas que só adia o EXIT de verdade.
E foi justamente isso que me fez concluir que nem sempre a posição de fundador é a mais vantajosa no cap table, por mais que o percentual faça parecer que sim.
OK bonitão, mas qual é a sua tese então?
Minha tese não surgiu do dia para a noite. Foi muita dor de cabeça, muito write-off, muito dinheiro queimado e, claro, muita observação do que acontecia ao meu redor. Afinal, quem aprende com os próprios erros é inteligente, mas quem aprende com os erros dos outros é gênio.
Ainda me questiono se deveria ter sido mais cauteloso há 8 anos. Mas vejo que, se tivesse sido mais conservador... talvez tivesse o dinheiro, mas não o conhecimento. E conhecimento vale mais que dinheiro, pois pode gerar muito mais, hoje e no futuro (e provavelmente vocês não teriam interesse em ler minha newsletter com dicas comuns de investimento).
Dito isso, é assim que foco meus ativos hoje:
Equity de startups, só com preferência de liquidação
Definitivamente, minha prioridade é ficar fora da zona de "fundador", focando principalmente em equity de investimento anjo, advisory e stock options.
Além disso, os stock options podem ter gatilhos de recompra, que garantem uma liquidez antecipada com ganhos limitados, funcionando praticamente como uma "venda a prazo".
Em casos muito excepcionais, eu entro na faixa de vesting, mas apenas em ativos onde tenho condições de liderar rodadas de investimento e eventos de liquidez.
Construção de ativos de nova economia real
Como empreendedor serial, é óbvio que não abro mão de criar novos negócios. No entanto, optei por me concentrar em operações que distribuem dividendos e não necessariamente buscam liquidez.
Eu chamo de "nova economia real" empresas com potencial de escala, mas sem as curvas de crescimento e os riscos agressivos das startups. Empresas que também não precisam necessariamente ser vendidas, embora possam ser, a partir de um determinado faturamento (geralmente R$ 15 milhões/ano).
Essa estratégia híbrida adota um padrão de governança idêntico ao de uma startup, evitando a dependência dos fundadores, mas priorizando margem e sustentabilidade.
É uma conta inteligente, considerando que dinheiro líquido não é exatamente a melhor forma de armazenar riqueza (apesar do que pensa quem não tem educação financeira) e que geralmente acaba sendo aplicado em ativos com desempenho inferior ao de operações de médio porte.
Isso pode incluir empresas de serviço, que podem escalar com inteligência artificial, participações em holdings e até pequenos negócios de tecnologia, hoje conhecidos como micro-SaaS, capazes de gerar renda recorrente e oferecer oportunidades de explorar sinergias dentro do grupo empresarial.
Investimento via venture-debt
Depois de apanhar bastante com o “golpe do unicórnio” e considerando as características instáveis do mercado financeiro brasileiro, tenho dado mais atenção à modalidade de venture debt, em vez dos aportes anjo convencionais.
Enquanto o investimento anjo tradicional foca na aquisição de equity, com expectativa de liquidação futura, as modalidades de debt preveem uma participação nos resultados até um certo período.
Isso significa que o intervalo entre o aporte e o retorno é menor, permitindo um ciclo de alavancagem mais rápido e dinâmico.
É claro que os riscos são altos. No entanto, trata-se de um instrumento excelente, principalmente para explorar oportunidades na creator economy, que potencialmente podem gerar tanto retorno quanto um EXIT clássico no mercado brasileiro em poucos meses.
Por outro lado, não é um investimento passivo. Aqui, o smart money faz muito mais diferença, muitas vezes exigindo compartilhamento de estrutura e até o uso da própria marca e audiência do investidor.
Os resultados? Ainda precisamos percorrer alguns quilômetros até ter algo que possamos chamar de track record.
Conclusão
A conclusão é que ainda não cheguei a uma conclusão definitiva.
Também não posso afirmar que perdi tempo ou dinheiro, afinal, tudo isso se transformou em experiência. E essa experiência serviu para construir a estratégia que compartilho hoje com você.
Isso é algo que eu não poderia comprar, mesmo que fizesse todos os cursos disponíveis.
Quem trilha o caminho é o caminhante, e é justamente isso que estou fazendo agora.
Mas ter a oportunidade de caminhar à frente do hype, desenvolvendo e testando teses, não tem preço.
Tem valor.
Um abraço aventureiro e felicidades!



