O ano de 2026 já acumula mais de 500 mil demissões no setor de tecnologia, incluindo o recente corte de 3.300 colaboradores na Uber. Contudo, ao contrário dos anos anteriores, a justificativa pública deixou de ser o custo puro ou a promessa da Inteligência Artificial e migrou para a redução de camadas hierárquicas.
Em bate-papo no podcast Fala Marajá, Renato Sapienza — especialista e advisor em governança decisória — explicou por que cortar a gerência média resolve apenas metade do problema financeiro e cria um gargalo nas operações.
O erro de cortar a folha sem reescrever quem decide
A gerência média virou o alvo principal das planilhas porque representa um custo visível na folha. O problema é que grande parte das empresas cresceu sem projetar um sistema decisório formal, dependendo de estruturas orgânicas e informais que ficavam na cabeça desses gestores.
Quando o profissional é desligado, o custo sai da planilha, mas a necessidade da decisão permanece. Sem alçadas claras e reescritas, a decisão abandonada segue três caminhos problemáticos:
Sobe para o C-Level: A agenda dos diretores e do CEO trava com aprovações triviais, fazendo o fundador analisar orçamentos de R$ 30 mil e de R$ 3 milhões no mesmo nível de prioridade.
Desce sem controle: Colaboradores operacionais assumem alçadas acidentalmente, sem critério ou respaldo oficial.
Cai no limbo da omissão: A decisão não é tomada, o prazo expira e a não execução vira a decisão padrão.
A ilusão da substituição por IA
Estudos do MIT revelam que 95% dos pilotos de IA não apresentam retorno financeiro mensurável, enquanto a Gartner prevê que 40% dos projetos agênticos serão cancelados até 2027 por falta de controle de risco. A IA acelera análises, mas não assume a responsabilidade final. Eliminar camadas humanas contando com uma automação que ainda não possui governança é um descasamento arriscado de prazos.
Sinais de que o seu sistema decisório faliu
Sistemas decisórios disfuncionais dão sinais claros antes de aparecerem no balanço financeiro:
Reuniões infinitas focadas no mesmo “realinhamento” sem deliberação.
CEOs atuando como juízes entre áreas conflitantes.
Decisões tomadas em conversas paralelas e apenas chanceladas formalmente por comitês.
Para empresas em fase de escala, fusões ou reestruturação, desenhar as premissas e os limites das alçadas decisórias é o único caminho para evitar reuniões intermináveis e a sobrecarga da liderança.
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