Só existe um tipo de empresa: Economia Real. Mas, onde as startups ficam nessa história?
Startups são empresas como outra qualquer, porém, com uma dinâmica de capital diferente. Entenda como funciona para não cair na síndrome de Peter Pan.
Quando comecei a dar os primeiros passos no mundo das startups, há mais de 10 anos, confesso que não entendia muito bem a dinâmica: dinheiro “infinito”, pouco faturamento, valuation nas alturas e muito “oba oba”.
É claro que quis me aprofundar, até que em 2018 consegui ingressar em uma aceleradora. Vindo do mundo da consultoria, aquilo realmente parecia ser perfeito: pessoas conectadas, eventos para todos os lados, e escritórios de primeira linha subsidiados. Do que eu poderia reclamar?
Mas, alguns fatos me deixavam encucado.
Certo dia, uma das startups que havia sido premiada na aceleradora estava encaixotando as coisas para deixar o hub. Ela não havia conseguido concluir a rodada de investimento e teve que encerrar as operações.
A imagem do troféu de acrílico na caixa acendeu um alerta:
O que realmente mantinha tudo aquilo?
A indústria da especulação
Toda bolha é fabricada e incentivada por quem fatura com o movimento, e no mundo das startups não é diferente.
Nesse cenário, os fundadores iludidos são o produto. Eles demandam capital para colocar suas ideias em prática, são experts em produzir lindos PPTs e despejar frases de efeito em palcos e redes sociais. É, de fato, fantástico quando um produto “se vende sozinho”.
Outro componente importante nessa indústria é o investidor aventureiro, que podemos dividir em duas categorias:
A minoria: Aquela que sabe o que está fazendo e consegue gerar sua saída (exit) antes que a bolha exploda.
A maioria: Aquela em busca de status, que não entende nada de investimentos, mas quer a alcunha de “investidor-anjo”.
Não é difícil entender quem paga a conta.
No meio disso, há uma série de agentes que lucra com um percentual da transação ou da taxa de administração, eventos, imersões e tudo mais que é necessário para compor o circo. Afinal, não importa o resultado final, mas sim que a operação aconteça. Nada muito diferente do que aconteceu no caso do Banco Master e de quem lucrou com a distribuição dos CDBs – nada contra, é só o sistema funcionando.
O problema? Quando esse movimento ultrapassa os limites de uma economia frágil como a brasileira e coloca em xeque todo o ecossistema.
E é exatamente isso que aconteceu.
A Lógica por Trás do Valuation (Indícios, Não Fatos)
Sim, existe lógica no valuation das startups e, embora sejam ativos especulativos, eles fazem muito sentido.
Enquanto empresas de economia real utilizam parâmetros do presente em suas avaliações, startups baseiam seu valuation na especulação de crescimento futuro. Os aportes acontecem com base no quão provável é que tais projeções se concretizem.
Ou seja: empresas de economia real são avaliadas por fatos; startups, por indícios.
Os indícios são baseados em diversos fatores: indicadores do setor, tipo de modelo de negócio, expectativa de liquidez e, crucialmente, na confiança de que o time de fundadores tem a habilidade para conduzir o negócio de A para B.
Isso acontece porque, no modelo startup, a necessidade de caixa para atingir seu alvo de maturidade (tornar-se uma empresa de economia real) é muito superior aos seus parâmetros de rentabilidade. Além disso, o foco do investidor de startup está na valorização das ações (equity) e não nos dividendos.
Onde a Lógica Encontra o Brasil
E é aí que a coisa complica no Brasil.
Ativos de startup possuem ZERO liquidez. Isso significa que, ou você nunca verá o dinheiro de volta, ou terá retorno apenas em um M&A (Mergers and Acquisitions) ou em um IPO (Initial Public Offering), o que pode levar de 5 a 10 anos (ou nunca acontecer).
Tudo bem se você vive no Japão, mas em um país onde a SELIC bate 15%, isso representa um enorme custo de oportunidade – e um grande problema.
Ainda assim, existem muitos bons ativos que, com certeza, vão gerar bons retornos aos investidores. Mas, considerando o dia a dia e o risco, precisamos considerar outras alternativas.
Deixe os Unicórnios e Camelos, o Brasil é dos Vira-latas Caramelo
Unicórnio é só um cavalo com um chifre, geralmente de plástico. Startups Camelo? Aquelas que fazem grandes captações, mas dosam o cash burn? Pois é, só esqueceram de dizer que um camelo bebe mais de 100 litros de água em uma parada estratégica…
É por isso que o verdadeiro representante da inovação brasileira deveria ser a startup Vira-lata Caramelo. É simpática, se adapta imediatamente a qualquer ambiente, pode não ter ração de primeira linha, mas está sempre mastigando. E, se der sorte, pode ser adotada por algum dono rico, embora não dependa disso para ser feliz.
A natureza da inovação deveria ser a melhoria contínua e adaptação, não a especulação e o empreendedorismo de palco. Toda vez que desviamos do nosso propósito, desperdiçamos oportunidades, energia e, claro, dinheiro.
O Brasil tem os principais insumos para ser líder de inovação: problemas de sobra e gente criativa disposta a trabalhar.
É só parar com a síndrome de “vira-lata” e parar de copiar gringo.
Bootstrap e Solo Empreendedorismo: Foco em Tração, Não em Escala
As pessoas continuam repetindo mantras de 20 anos atrás: “Crie um SaaS, priorize escala, capte investimentos”. Só esqueceram que, além da diferença temporal, vivemos em outro universo econômico.
Escala é para quem tem caixa. Quem está começando agora precisa priorizar a tração. E as condições para tracionar hoje são muito melhores: temos a redução da barreira de entrada tecnológica e o acesso amplo ao mercado pelas redes sociais.
Outro fator que não importa para o bootstrapper (a startup que não precisa de investimento) é o co-fundador. É natural que fundos de investimento exijam um time de fundadores (com “S”) justamente para balancear o risco, mas em um empreendimento tracionado, isso não é importante.
Priorize a construção de parcerias de valor, participe de ecossistemas de empreendedores e só admita novos sócios se for estritamente necessário e fizer sentido.
Na prática, você não precisa de nada além do seu conhecimento e reputação até atingir seus primeiros R$ 3 milhões. Daí para frente o jogo muda, mas isso é assunto para outro bate-papo.
Um abraço solo e felicidades




Artigo fantástico, a sua analogia de startups camelo para caramelo é muito boa, e vou usar na consultoria que dou para uma startup.
Hoje mesmo eu publiquei um artigo sobre a morning brew e encaixa perfeito nisso. Mesmo com um aporte de family & friends significativo, eles trabalharam desde o início como se fosse uma startup caramelo.
De forma enxuta.
Com os custos na ponta do lápis.
E só gastaram dinheiro depois que sabiam exatamente o seu CLV e seu CAC. Jamais ultrapassando o custo de aquisição, e depois que esgotaram a forma de crescer organicamente.