Solo First não é Solo Forever: Quando é a hora de ter um sócio
Quando falamos em empreender, a figura do sócio quase sempre surge, porém, existe um momento certo de trazer novas pessoas para o negócio.
Até alguns anos atrás, não é era possível constituir uma empresa sem ter um sócio. Para resolver isso, muitos implementaram a figura do laranja, que persistiu quando surgiu a modalidade de sociedade EIRELLI que exigia, porém, um capital social de 100 salários mínimos.
Tempos depois surgiu o MEI, voltado a formalização de atividades comerciais simples, sem aplicação para empreendedores de alto impacto. Mais tarde, a simplementação de sociedades simples unissociais foi liberada e o solo empreendedorismo naturalizado.
Ainda assim, aspectos culturais herdados do corporativo e também vieses não explicados do Venture Capital, sobretudo no boom das startups, geraram uma falsa demanda por uma companhia na fundação de um novo negócio.
No entanto, trazer um sócio cedo demais, pode representar o início do fim de um negócio, ao mesmo tempo, ser um Solo Forever pode significar ausência de possibilidades de liqudez ou mesmo continuidade do ativo.
Vamos explorar estes cenários, hoje, neste artigo.
Os motivos (errados) para ter um sócio
Muitas sociedades são construídas pelos motivos errados e isso tem consequências catastróficas. Com muitos empreendedores vindo do corporativo, a sensação de que número de pessoas importa acaba inchando negócios novos sem necessidade.
O primeiro motivo idiota para trazer um novo participante é a necessidade de mão de obra e o pensamento de que não é possível realizar algo sozinho. Você pode sim precisar de mão de obra, mas ela deve ser paga com dinheiro e não equity.
Mesmo que você não tenha dinheiro para pagar um salário, é possível desenhar modelos de revenue share e parceria com ganhos variáveis, onde o seu colaborador recebe uma participação na renda e não em ações.
Ain…mas eu preciso construir o meu produto para ir a mercado…
Então, você está começando pelo lado errado.
Se você tem dinheiro para investir, tudo bem desenvolver um produto e ir a mercado depois, mas, se não tem, você precisa ser “Service-First” e gerar receita a partir do que você tem em mãos.
Outro motivo errado para ter um sócio é a “complementariedade”. Isso nada mais é do que insegurança, afinal, se você não é capaz de iniciar sozinho, tampouco vai ser capaz de liderar uma operação quando ela estiver em plena carga.
Se você não tem segurança para empreender, dê meia volta e fique no CLT.
As diferentes faixas do Solo First
A minha recomendação é seguir sozinho até o primeiro milhão, trazer colaboradores entre 1 e 5 milhões/ano e, aí sim, trazer sócios para a jogada a partir dos 5 milhões.
A primeira faixa é facilmente atingida ao se empacotar capital intelectual, usando também a reputação e o networking como avalistas e canal de distribuição. É a zona do Open Talent.
Quando ultrapassamos a barreira do milhão, é hora de trazer mais pessoas para o jogo. No entanto, estas pessoas devem ser trazidas como colaboradoras ou parceiras, recebendo salário ou participação no faturamento. Elas estão lá para ajudar na entrega e não na construção.
Porém, a partir da barreira dos 5 milhões, é hora de passar o bastão e aí sim é preciso ter pessoas que estão no mesmo barco. Essa passagem é importante por dois fatores: continuidade e liquidez do ativo empresarial.
A grande questão é que, neste nível, sua operação tem um valor de mercado mais alto e está capitalizada, portanto, o percentual cedido para novos sócios é bem menor, além disso, se necessário, você pode utilizar dispositivos de recompra, o que não se aplica em negócios early stage.
O problema surge quando você tenta aplicar mecanismos de negócios mais desenvolvidos no começo. Além de distribuir fatias exageradas da operação, dado o baixo valor de mercado, você não tem meios de converter isso em valor.
Cada faixa de crescimento exige uma estratégia diferente.
Outros modelos de parceria
Equity só interessa para pessoas em fase de expansão de patrimônio, o que significa que participar da sua empresa não interessa para mais de 99% das pessoas.
Quem trabalha precisa de dinheiro, portanto, existem formatos mais justos e que protegem o seu ativo empresarial.
Se você não pode pagar um salário, pode propor um modelo de participação no faturamento. Isso é mais simples em modelos de prestação de serviço, uma vez que os valores e expectativas são mais claros.
Em produtos educacionais, como cohorts e infoprodutos, o modelo de co-produção é bastante utilizado, com uma divisão de receita no momento da compra. A maioria das plataformas do mercado é capaz de gerenciar a divisão dos valores de forma automatizada e transparente.
Quando estamos falando do desenvolvimento de produtos, como um software, as coisas são mais obscuras. A taxa de retorno não é proporcional ao esforço e o modelo de divisão de receita não é recomendado.
O jeito certo de trazer novos sócios
Um novo sócio deve atender a dois critérios básicos: Interesse no ativo empresarial, aumento de valor de mercado e potencial de liquidez. Qualquer potencial sócio que não cubra estes dois elementos deve ser apenas um colaborador ou parceiro.
Um dos modelos mais efetivos é o de opção de compra, onde o colaborador ou parceiro tem a opção de converter parte da sua receita em ações da empresa com um valor diferenciado.
Essa modalidade é interessante por exigir uma postura ativa do colaborador, no sentido da conversão, e também expor os objetivos de curto e longo prazo. Se ele precisa de dinheiro, vai optar pela receita, mas se está construindo patrimônio, vai optar pelas ações.
Outro formato interessante é o de vesting, onde transferimos ações da empresa atreladas ao tempo de casa e atingimento de objetivos. Esse instrumento é bem-vindo sobretudo quando o negócio está em expansão e surge a necessidade de criar uma estrutura de continuidade.
Existe ainda a alternativa de um sócio institucional, como uma venture builder, que tem função específica de servir como espinha dorsal do negócio. Estruturas como esta geralmente estão vinculadas a fundos de aquisição de ativos e podem ser uma excelente opção caso seu objetivo seja um evento de liquidez futuro.



