Você no "Bolsa Família" Parte 1: O chá revelação
No futuro a maior parte da população será beneficiária de programas sociais, mas as coisas não vão ser exatamente como você imagina.
É muito comum ouvir nos bate papos e mesmo nas postagens pela Internet, pessoas criticando programas sociais como Bolsa Família, Vale Gás e outros assistencialistas. A primeira crítica é sobre a “injustiça” de trabalhar para sustentar os outros, a segunda é que esse tipo de assistência reduziria a iniciativas dos seus beneficiários de realizar atividades produtivas.
Esse tipo de pensamento ilustra a ignorância generalizada de como o sistema funciona e é justamente esse o objetivo desta série de artigos. Inicialmente eu iria escrever sobre o funcionamento provável de um sistema de renda universal, no entanto, eu entendi que, sem as bases adequadas, o artigo iria gerar mais confusão do que reflexão.
Então, vamos começar pelo básico.
Chá Revelação
Aqui vamos entender em qual ponto você está e quem você sustenta.
Miserável: O miserável não possui meios para suprir seu custo de vida e depende de doações terceiros para viver.
Pobre: Precisa trabalhar para suprir seu custo de vida. Se parar de trabalhar, torna-se um miserável.
Rico: Não depende do seu esforço para suprir seu custo de vida, nem depende da doação de terceiros para viver.
Existem ricos vivendo uma vida simples na praia, pobres dirigindo Porsches e miseráveis em mansões.
Mas, aqui vem a grande revelação: Quem financia quem.
O dinheiro do Rico não vem do éter, mas de duas fontes fundamentais:
Equity: Participações em ativos empresariais que geram dividendos
Crédito: Dinheiro que é emprestado, seja diretamente ou através de veículos e rendem juros
Todos os produtos financeiros, direta ou indiretamente são desdobramentos destas duas modalidades.
O equity pode ter sido construído, através da atividade empreendedora, ou adquirido, seja através da bolsa de valores ou investimento privado. As operações de crédito ocorrem quando você compra títulos públicos, investe num CDB ou, num volume mais alto, se torna cotista de um FIDC.
Avançando no raciocínio, quem mantém o sistema do rico rodando? O pobre.
Ele vende sua força produtiva por um preço fixo para uma empresa que captura valor diretamente no mercado. No mercado de consultoria, por exemplo, entre 15% e 20% do valor capturado é pago ao trabalhador. O resto sustenta a estrutura empresarial, custos financeiros e impostos.
Na outra ponta, o pobre ainda toma dinheiro emprestado para financiar seu estilo de vida. Seu Jeep Renegade, seu apartamento de 100 metros e seu Iphone. Tudo isso paga juros para os veículos de crédito.
Na ponta, o rico recebe dividendos das estruturas produtivas e juros do dinheiro emprestado que mantém tudo rodando.
Tanto o rico quanto o pobre pagam impostos, que depois de pagar a corrupção, serve para subsidiar a existência dos miseráveis. No fim do dia, o pobre (inclusive o premium) não banca apenas o miserável, mas também o rico.
E não há nada errado com isso.
Afinal, o pobre poderia viver sem dívidas e trabalhar por conta própria. É uma questão de opção.
O colapso da elite intelectual
Vamos falar agora sobre os interesses e motivações de cada grupo.
Miserável: Manter-se vivo até amanhã.
Pobre: Ascender socialmente.
Rico: Manter o status quo.
Vamos entender como estes interesses conflitam e como podem ameaçar a existência do sistema atual como conhecemos.
Para isso, deixaremos o miserável e o pobre de lado por um momento, pois eles não fazem parte da cadeia de decisão.
O rico vive de dividendos e juros, portanto ele precisa que algumas coisas aconteçam:
Suas operações tenha margens mais elevadas
Mais dinheiro seja demandado através do crédito
A grande questão é a velocidade de resposta. A melhoria nas margens operacionais podem apresentar resultados já no próximo trimestre, enquanto flutuações nos juros possam levar tempo até gerarem algum tipo de diferença no bolso.
Ricos e pobres não são tão diferentes em mentalidade, ambos querem crescer mais e mais. A diferença é a estratégia utilizada por cada um. O pobre cresce quando aumenta seu salário, o rico cresce quando aumenta as margens dos seus negócios.
E agora, temos um novo ator no jogo: A inteligência artificial.
Diferente de outras evoluções e automações que atingiam a camada operacional, a inteligência artificial de hoje atinge em cheio as atividades intelectuais de maior complexidade, terreno de analistas e gestores.
E, bingo: Os maiores salários médios do mercado.
Estamos falando da faixa entre R$ 10 mil e R$ 30 mil mensais, ou seja, a mediana de ganhos do pobre premium. Sim, aquele cara que anda de BMW financiada, posta fotos da Maldivas no Instagram e frequenta os outlets norte americanos.
Não existe interesse comercial em substituir um trabalhador manual de R$ 5 mil por mês ou um motorista de aplicativo que ainda paga o próprio carro achando que é empreendedor, tampouco um C-level de R$ 80 mil por mês que pode ser responsabilizado criminalmente no caso de uma fraude ou mesmo ser o bode espiatório caso algo dê errado.
E, pode anotar, é nessa faixa que acontecerão as maiores baixas do mercado, afinal, é o miolo onde há o maior ROI em implementação de tecnologia, e que toda consultoria premiada da moda já está de olho.
Não por acaso, toda notícia de demissão em massa motivada por implementação de IA é imediatamente recompensada por alta nas cotações. Se você for o obstáculo até o próximo indicador financeiro favorável, pode apostar, céus e terra se moverão para te tirar do caminho.
Continua…
No próximo artigo, vou explorar como medidas precisam ser tomadas para que essa transição não cause um caos social (se é que isso é possível).
Fique de olho. E, se esse assunto mexeu com você, deixe seu comentário, discuta no nosso chat ou, quem sabe, vamos fazer uma live para debater o caso com os inscritos.




