Empreender no Brasil deixou de ser uma simples tábua de salvação contra o desemprego para se tornar uma escolha deliberada de carreira e visão de mercado. A imagem histórica do brasileiro que abre um negócio puramente por necessidade deu lugar a uma maturidade estrutural sem precedentes: hoje, 58% dos novos empreendedores iniciam suas atividades por Oportunidade — identificando demandas claras, planejando seus modelos de negócio e investindo por escolha própria.
Esse movimento reflete a força de um ecossistema que movimenta 44,1 milhões de empreendedores ativos no país, divididos entre aqueles que estão dando os primeiros passos e um contingente altamente resiliente.
Segundo o levantamento consolidado da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) — divulgado pelo DataSebrae e pela Agência Sebrae de Notícias (ASN), em parceria com a Anegepe —, o Brasil estabilizou sua Taxa de Empreendedores Estabelecidos em 12,4%. Isso significa que 17,2 milhões de pessoas comandam empresas maduras, que ultrapassaram a marca crítica de 3,5 anos de operação.
O avanço é notável quando comparado ao início da década, em 2020, quando o indicador oscilava em 8,7%. Mais do que uma recuperação histórica, o índice atual garante ao Brasil a 6ª colocação no ranking global entre mais de 100 economias analisadas pelo GEM. O país supera a taxa de sobrevivência de negócios de mercados tradicionais e altamente capitalizados, como Estados Unidos, Reino Unido e Itália.
O empreendedor é aquele que busca a mudança, reage a ela e a explora como oportunidade.
Peter Drucker
No entanto, nem toda vertente de empreendedorismo é capaz de gerar ativos empresariais ou mesmo receita importante. Por isso, é importante entender os diferentes contextos de empreendimento para que a atividade seja, de fato, vantajosa e contribua de forma efetiva para a sociedade.
Empreendedor não é sinônimo de empresário
Embora no senso comum os termos sejam frequentemente tratados como sinônimos, a literatura econômica, a ciência da administração e o próprio ordenamento jurídico estabelecem distinções claras entre quem empreende e quem empresaria. Entender esse contraponto é fundamental para compreender como novos negócios saem do papel e se transformam em estruturas perenes.
O Empreendedor: O Agente da Inovação e da Oportunidade
Na visão da economia clássica, Joseph Schumpeter (1997) define o empreendedor como o verdadeiro motor da “destruição criativa”. Ele rompe o fluxo econômico tradicional ao introduzir novas combinações — sejam novos produtos, novos métodos de produção ou a abertura de mercados inéditos. Para Schumpeter, o papel do empreendedor está estritamente atrelado ao ato de inovar:
“Ao se acomodar na rotina de gerenciar o negócio já criado, ele passa a agir meramente como um administrador.” (SCHUMPETER, 1997)
Aprofundando essa abordagem no campo da gestão, Peter Drucker (2002) esclarece que o empreendedorismo não é um traço místico de personalidade, mas uma atitude perante a mudança. Segundo o autor, o empreendedor não causa a mudança, mas “a busca, responde a ela e a explora como uma oportunidade” (DRUCKER, 2002). A inovação surge, assim, como a ferramenta específica do empreendedor para converter recursos em riqueza.
O Empresário: A Racionalidade e a Sustentação da Estrutura
Se o empreendedor habita o campo da intuição e da transformação, a figura do empresário está ancorada na racionalidade, na sustentabilidade e no rigor administrativo.
Idalberto Chiavenato (2007) explica que o “espírito empreendedor” envolve paixão, visão e a disposição para assumir riscos em cenários incertos. Contudo, para que a ideia se consolide e sobreviva comercialmente, é indispensável a presença do empresário, que insere o planejamento estratégico, a organização de processos e os controles formais. Na síntese de Chiavenato: o empreendedor cria; o empresário profissionaliza e mantém.
No Brasil, essa figura ganha contornos estritamente formais no ordenamento jurídico. Enquanto a legislação não conceitua a figura do “empreendedor”, o Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406/2002) estabelece a definição exata do empresário no seu Artigo 966:
“Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.” (BRASIL, 2002)
O Ponto de Encontro: A Necessidade do Equilíbrio
Na prática, o sucesso sustentável de uma empresa exige a coexistência ou a transição harmoniosa entre esses dois papéis. O excesso de impulso empreendedor sem a disciplina e a racionalidade do empresário gera caos operacional e mortalidade precoce. Por outro lado, a gestão puramente burocrática do empresário, desprovida da visão empreendedora, condena o negócio à estagnação e à obsolescência diante do mercado.
Empreendedorismo e a construção do ativo empresarial
Para além da inovação e da gestão de processos, a verdadeira maturidade empreendedora se consolida quando o fundador compreende a diferença fundamental entre trabalhar para uma empresa (mesmo que própria) e construir um ativo empresarial.
Popularizado na literatura financeira por Robert Kiyosaki em Pai Rico, Pai Pobre (2017), o conceito mais prático de ativo é simples: ativo é tudo aquilo que coloca dinheiro no seu bolso, enquanto passivo é tudo o que tira. Quando aplicamos essa ótica ao mundo empresarial, precisamos separar com clareza a remuneração pelo esforço físico e intelectual da geração real de riqueza através do equity.
Salário vs. Dividendos: Duas Naturezas de Remuneração
Existe uma confusão recorrente no ecossistema de negócios entre o valor gerado pela operação diária do dono e o retorno sobre o capital investido:
Remuneração pelo Trabalho (Pró-labore/Salário): É a contraprestação financeira dada ao indivíduo pelas horas dedicadas à execução de uma função dentro da empresa. Se o dono atua como diretor comercial, ele deve ser remunerado pelo valor de mercado referente a essa função.
Remuneração pelo Ativo (Dividendos/Equity): É a distribuição do lucro líquido gerado pela operação aos seus acionistas ou sócios, como remuneração ao risco do capital investido na sociedade.
O Teste de Autonomia: Quando o Negócio se Torna um Ativo Real
Uma empresa só se transforma em um ativo empresarial genuíno quando é capaz de gerar dividendos para seus proprietários independentemente da atuação direta dos mesmos na atividade-fim.
Se a operação exige a presencialidade diária, a assinatura de cada contrato ou o direcionamento técnico do fundador para continuar faturando, ela ainda não é um ativo — é uma estrutura dependente. Como destaca Morgan Housel em A Psicologia Financeira (2021), a verdadeira riqueza e independência dependem da capacidade de construir sistemas que acumulam valor e continuam gerando retorno sem exigir a sua presença contínua.
Ao alcançar a autonomia operacional, a participação societária (seja em Private Equity ou em ações listadas na bolsa) passa a compor a parcela mais nobre do patrimônio líquido do indivíduo.
O Mito da Empresa que é Apenas um “CNPJ com Salário”
Essa distinção traz uma reflexão incômoda, porém necessária para o mercado: nem todas as empresas possuem valor de mercado ou constituem um ativo real.
A grande maioria dos negócios de pequeno e médio porte funciona como mero instrumento jurídico ou “guichê de faturamento” para canalizar o trabalho e o esforço individual do seu proprietário. Se o fundador decidir se ausentar por seis meses e o faturamento desmoronar, o negócio não possui valor de liquidação ou atratividade para fusões e aquisições (M&A). Nesses casos, o proprietário não construiu um patrimônio (equity); ele apenas criou um emprego para si mesmo.
Construir valor de verdade exige transformar a intuição e a energia do empreendedor em processos, governança, cultura e sistemas decisórios que funcionem sem ele. Só assim o negócio deixa de ser um esforço contínuo de sobrevivência e se torna um ativo perene de geração de riqueza.
Qual o seu tipo de empreendedor?
Intraempreendedor
O intraempreendedor é aquele que explora oportunidades dentro de uma estrutura empresarial sem necessariamente ser recompensado diretamente, seja por receita ou equity. É uma postura pró-ativa num ambiente de trabalho que pode acelerar seu crescimento profissional.
Empreendedor ocasional
O empreendedor ocasional é aquele que explora oportunidades de forma paralela a sua atividade principal com intuito de complemento de renda, sem uma finalidade clara além da própria renda adicional.
Empreendedor de subsistência
O empreendedor de subsistência é aquele que empreende para suprir as suas necessidades financeiras, tendo a estrutura empresarial como um bypass da sua própria atividade profissional, sem a construção de um ativo empresarial.
Empreendedor capitalista
O empreendedor capitalista é aquele que constrói um ativo empresarial a partir dos seus capitais, humanos e/ou financeiros, com objetivo de geração de dividendos e/ou liquidez futura, podendo ou não utilizá-lo como veículo de entrega da sua atividade profissional.
Quais tipos de empreendedor a Solo First apoia?
Na Solo First fomentamos a formação e consolidação de empreendedores capitalistas, que constróem ativos empresariais independentes e líquidos, porém, entendendo que isto só é possível através da transição entre os diferentes tipos de empreendedorismo.
Iniciando pelo empreendedorismo ocasional, que é realizado de forma paralela a um emprego tradicional, passando pela fase de consolidação no empreendedorismo de subsistência e escalando na fase do empreendedorismo capitalista.
Acreditamos que, não importa o seu ponto de partida, desde que o ponto de chegada seja claro.
Ao mesmo tempo, lutamos contra a alienação e estagnação empreendedora, que faz com que negócios ineficientes e sem sentido drenem a produtividade dos seus fundadores e tenham sua contribuição para a sociedade limitada ou anulada por falta de conhecimento e estratégia.
Como podemos te apoiar hoje?
Se você é CLT/PJ, mas ainda não tem certeza se quer empreender, mas gostaria de validar antes de tomar uma decisão:
Se você é executivo, ganha mais de R$ 25 mil por mês e está decidido em construir algo, mas não quer arriscar carreira e reputação:
Se você já empreende a partir de capital intelectual, possui uma consultoria que fatura pelo menos R$ 1 milhão/ano e precisa de ajuda para escalar e construir um ativo empresarial:





